Panela velha é que faz comida boa

Eu tenho uma amiga meio indie que sempre tenta fazer com que eu me sinta musicalmente careta e ultrapassado por não dar bola para bandas novas e moderninhas em geral. Mas quem precisa delas? As bandas BOAS ainda estão por aí lançando discos e fazendo shows.

O primeiro semestre de 2011 foi bastante razoável para sujeitos rústicos e antiquados feito eu, que preferem dedicar sua atenção aos grupos musicais “do seu tempo” e têm pelo indie contemporâneo o mesmo apreço que por, sei lá, uma pulga ou bicho de pé. Se você é da mesma turma mas deixou as “novidades” passarem despercebidas, fique sabendo que:

O R.E.M. lançou um discaço, “Collapse Into Now”. O álbum segue a tradição dos melhores da carreira da banda e traz uma competente coletânea de faixas variadas, que ora soam alegrinhas e empolgantes (“Discoverer”, “It Happened Today”), ora melancólicas e introspectivas (“Überlin”, “Oh My Heart”). Stipe, Mills & Buck contam aqui com participações especialíssimas de Eddie Vedder (do Pearl Jam), Patti Smith e de uma tal de Peaches — de quem eu nunca ouvi falar, mas que mandou muito bem num dueto com Michael Stipe na animadinha  “Alligator_Aviator_Autopilot_Antimatter”.

“Collapse Into Now” consegue ser, a um só tempo, leve e profundo, alegre e melancólico. É exatamente o tipo de disco que o fã espera do R.E.M., portanto não crie expectativas de encontrar algo original ou inovador. Mas quem se importa? Por mim, se for para continuar lançando material de altíssimo nível como este, o grupo pode seguir no “mais do mesmo” para sempre. Bastante relevante.


O Foo Fighters, por sua vez, lançou um disco que é, no mínimo, o segundo melhor de sua carreira. “Wasting Light” é um álbum nervoso: tem mais guitarras distorcidas que todos os outros trabalhos do FF juntos, e o quarentão Dave Grohl ainda consegue berrar feito um adolescente revoltado quando quer (mas também sabe fazer baladinhas pop grudentas quando dá vontade).

Apesar de porcarias como “White Limo” e “Back & Forth” serem uma vergonha para todos os envolvidos, pérolas como “Bridge Burning”, “Dear Rosemary” e “These Days” seguram o nível e contribuem para um álbum de rock bem gostoso e divertido, que poderia até ser considerado “memorável” para os padrões atuais. Bastante relevante.

Logo depois que a melhor banda do mundo (o Oasis, se você não sabe) acabou, Liam Gallagher reuniu o que sobrou do grupo após a saída de Noel Gallagher e fundou o Beady Eye. Os caras lançaram um disco no início do ano que me surpreendeu muito, não por ser ótimo ou memorável, mas por ser muito menos ruim do que eu esperava.

“Different Gear, Still Speeding” não traz nada de novo ou original: apenas rock n’ roll simples e direto que remete a um monte de bandas dos anos 60 e 70. Lembra um The Who aqui, um Beatles ali, o próprio Oasis acolá. Tem ares de coisa velha reciclada, mas até que dá pra ouvir sem problemas.

O disco tem umas músicas bem boas (“Millionaire”, “Kill for a dream”), algumas bem PÉSSIMAS (“Beatles and Stones”, Standing on the edge of the noise”), outras bem bobinhas e ingênuas, mas gostosas de ouvir (“For anyone”, “The morning son”). Tipo, podia ser melhor, mas também podia ser muito pior. Oscila entre o irrelevante e o relevante, com ligeira preponderância do segundo.

Teve o Strokes também, com “Angles”. A banda segue tentando fazer coisas diferentes, desta vez flertando um pouco demais com a new wave dos anos 80 pro meu gosto.

O disco foi amplamente malhado pela crítica dita especializada, e não sem razão: ele é meio chato, mesmo. Mas tem coisa boa aqui também, como “Under cover of darkness” (na minha opinião, a melhor música da carreira dos caras até agora) e outras três ou quatro boas canções, que são tipo ilhas em meio a um pequeno oceano de mediocridade. Sendo bonzinho, dá pra dizer que é quase relevante.

(The Strokes e Beady Eye vão se apresentar no Brasil no Planeta Terra, em 05 de novembro. Eu vou, claro. Se você não comprou seu ingresso ainda, azar o seu: já tá tudo esgotado)

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2 Respostas para “Panela velha é que faz comida boa”

  1. Mariah Aversa Disse:

    Acho que se sua amiga “meio indie” lesse esse post ela ia concordar discordando e ia ficar pensando que provavelmente foi ela que te apresentou o Strokes. Acho que ela também ia ficar refletindo sobre como o tempo passa rápido e, de repente, junta no mesmo armário de panelas velhas R.E.M., Foo Fighters e Strokes. Ah! E ela também ia falar pra você parar de endeusar tanto essas bandinhas que surgiram ontem de tarde, que nem esse Beady Eye aí, que pode até ter o Liam e ser boazinha, mas não é o Oasis.

    • JC Disse:

      Nuossa, vou torcer pra ela não ler! rsrsrs

      E, de fato, essa minha amiga é meio pretensiosa, mas acho que não seria tanto a ponto de dizer que me “apresentou” o Strokes… não é como se a banda fosse desconhecida, né? Se ela dissesse que me apresentou o The National seria até aceitável…

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