A Guerra dos Tronos

Eu tenho essa mania de comprar livros, mesmo sem ter tempo ou disposição para ler todos. Alguns estão acumulando poeira na estante há mais de um ano, outros foram abandonados pela metade e serão — ou não — retomados em algum momento. Não me julgue; afinal, o dinheiro é meu e eu gasto como quiser.

O fato é que, graças ao consumismo literário desenfreado, há sempre um monte de livros aguardando um pouco de atenção em minha fila de leitura. Para poder ler um pouco de tudo, variando gêneros e autores aqui e ali, procuro evitar ao máximo as séries e livros muito longos em geral — afinal, quem quer perder tempo lendo uma história de 3 volumes com 500 páginas cada se há tantos bons livros de 200 dando sopa por aí?

Por procurar seguir essa filosofia, demorei a criar coragem para me aventurar pelas “Crônicas de Gelo e Fogo” de George R. R. Martin, um épico medieval previsto para durar 7 (sim, SETE) volumes. Ex-roteirista de cinema e TV, Martin abandonou seu antigo ofício pela literatura graças às constantes restrições orçamentárias impostas pelas produtoras — seus roteiros eram sempre considerados longos e/ou caros demais. Com “Crônicas…”, um misto de romance histórico e fantasia medieval inspirado na Guerra das Rosas, o autor mandou as limitações de tempo e dinheiro para a puta que pariu, criando uma história altamente épica, longa e repleta de personagens (são CENTENAS).

O primeiro capítulo da saga, “A Guerra dos Tronos”, impressiona o leitor logo de cara com uma história cheia de ação, suspense, intriga e traição. É difícil fazer uma síntese do livro, já que a quantidade de subtramas e personagens é tão grande que chega a ser absurda, mas, basicamente, trata-se de uma história sobre famílias. Famílias aliadas, famílias rivais, famílias nobres, famílias pobres, famílias reais, famílias abastadas, famílias sortudas, famílias injustiçadas. O livro trata dos conflitos, das ambições, das alianças, dos jogos de cobiça e poder travados por essas famílias, que protagonizam uma verdadeira “Guerra Fria” pelo trono dos Sete Reinos. Embora a narrativa acompanhe mais de perto os membros da família Stark, soberana das terras gélidas de Winterfell, eu não saberia dizer se existe algo como uma “família principal” na trama; todas elas têm sua importância e destaque, embora suas motivações e objetivos sejam bem distintos.

“A Guerra dos Tronos” é uma fantasia medieval em que o fantástico fica em segundo plano, já que a narrativa é sempre focada nos personagens e suas relações interpessoais. Não espere encontrar aqui algum tipo de conto de fadas Tolkeniano; trata-se de uma fantasia adulta (adulta do tipo que tem SEXO), realista, implacável. Não há mocinhos ou bandidos guerreando a guerra dos tronos, apenas seres humanos falíveis que lutam e defendem seus próprios interesses. Mesmo os personagens mais heróicos possuem falhas de caráter, e até os mais vilanescos são capazes de praticar atos de bondade para defender os seus.

Ah, e por falar em personagens… MELDELS, como são bons! O elenco de “Crônicas de Gelo e Fogo” é mais variado, denso e complexo que o de qualquer outra série do gênero, e o leitor acabará se afeiçoando a vários personagens pelos mais diversos motivos. Por exemplo, um mesmo sujeito (no caso, EU) poderá admirar Eddard Stark por sua dignidade e honradez, o anão Tyrion Lannister por seu humor sarcástico e espírito sagaz, e Daenerys Targaryen por sua coragem e determinação, mesmo sabendo que os três pertencem a famílias rivais e provavelmente se enfrentarão em algum momento.

Diferentemente do que costuma ocorrer em outros livros de fantasia, em “A Guerra dos Tronos” não há garantia de final feliz. Martin é totalmente implacável com seus personagens e não tem a menor pena de causar-lhes dor, humilhação, sofrimento e morte; além disso, a trama é tão imprevisível e cheia de reviravoltas que fica difícil fazer qualquer suposição sobre o que virá a seguir. É inevitável ter surpresas do tipo “cara, não acredito que isso está acontecendo!” durante a leitura, e isso é algo bem raro em livros do gênero.

Para completar o pacote, tem-se aqui uma história narrada de forma brilhante. O livro é dividido em vários capítulos curtos e cada um deles é focado em um personagem específico, o que torna a leitura do tijolão de quase 600 páginas muito mais ágil e agradável do que se poderia esperar. O leitor dificilmente fica cansado ou enjoado da história, já que há várias tramas paralelas e interdependentes em curso, todas elas bastante empolgantes e interessantes.

Acabei gostando d’ “A Guerra dos Tronos” muito mais do que eu esperava, e já dei um jeito de passar o próximo volume (“A Fúria dos Reis”) na frente do resto da fila de leitura. Altamente recomendado, INDISCUTIVELMENTE relevante.

A obra de Martin virou uma elogiada série da HBO. Só assisti o primeiro episódio e fiquei decepcionado com algumas atuações bem medíocres, mas tenho que reconhecer que se trata de uma produção grandiosa.

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